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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Entendendo melhor o Vinho do Porto


Será que você realmente sabe o que é o Vinho do Porto? A maioria das pessoas responde que é uma bebida doce feita em Portugal e para por aí! Isto sem falar na sopa de letrinhas que as garrafas trazem. Tawny, Ruby, LBV, e por aí vai. Qual o motivo de tanta variação de preços? Para comprar com segurança, sabendo o que vai levar, é preciso antes conhecer um pouco desse vinho e principalmente entender seus rótulos e siglas. 

O Porto é um vinho produzido apenas na região do Douro, em Portugal. Isto significa que não existe Vinho do Porto em nenhuma outra região do planeta? Sim, exatamente isto!!!


Apesar de produzida com uvas do Douro e armazenada nas caves de Vila Nova de Gaia, esta bebida alcoólica ficou conhecida como "vinho do Porto" a partir da segunda metade do século XVII por ser exportada para todo o mundo a partir desta cidade. Vila Nova de Gaia é o local com maior concentração de álcool por metro quadrado do mundo.

A "descoberta" do vinho do Porto é polêmica. Uma das versões, defendida pelos produtores da Inglaterra, refere que a origem data do século XVII, quando os mercadores britânicos adicionaram brandy ao vinho da região do Douro para evitar que ele azedasse. Mas o processo que caracteriza a obtenção do precioso néctar era já conhecido bem antes do início do comércio com os ingleses. Já na época dos Descobrimentos o vinho era armazenado desta forma para se conservar um máximo de tempo durante as viagens. A diferença fundamental reside na zona de produção e nas castas utilizadas, hoje protegidas. A empresa Croft foi das primeiras a exportar vinho do Porto, seguida por outras empresas inglesas eescocesas.

Como sabemos, os vinhos sofrem o processo de fermentação, ou seja, transformação do açúcar existente no suco de uva em álcool. Você deve estar se perguntando como que o Porto é doce, certo? Durante a fermentação do vinho do Porto é adicionado um aguardente vínico. Com a elevação alcoólica, a fermentação é interrompida e o vinho fica doce devido ao açúcar residual (existem também vinhos secos, menos comuns). Em seguida o vinho precisa envelhecer em madeira e na garrafa. O método de envelhecimento e a idade do vinho determinam categorias (também chamadas estilos ou tipos), todas identificadas nos rótulos através de nomes específicos. Conhecer o significado desses nomes é fundamental para esclarecer todas as dúvidas.

As principais uvas para a produção do Vinho do Porto são:

Tintas - Touriga Nacional, Touriga Francesa. Tinta Roriz, Tinto Cão, Tinta Barroca;

Brancas - Viosinho, Rabigato, Arinto e Códega.

Tipos de Vinho do Porto

White - é o único produzido com uvas brancas e envelhecido em madeira de 2 a 3 anos, podendo ser doce ou seco. No seco (dry), a adição de aguardente é feita no final da fermentação. Nenhum dos dois melhora depois de engarrafado.

Ruby - produzido com uvas tintas, é também engarrafado após 2 a 3 anos de idade e não melhora na garrafa. O nome é também uma referência à sua cor. 

Tawny - mesmo não ostentando nenhuma data no rótulo, é um vinho mais velho (acima de 3 anos) e mais elegante que o Ruby. Possui uma tonalidade de topázio queimado. 

Tawny Envelhecido - com prolongado estágio em carvalho, o vinho apresenta uma cor de mogno ou “aloirada”. A idade mencionada no rótulo - 10, 20, 30 ou 40 anos - é uma média das idades dos vinhos de vários anos que compõe o lote. O ano do engarrafamento também é indicado no rótulo. 

Tawny Colheita - vinho de uma só colheita e envelhecido em madeira no mínimo por 7 anos. Os anos da colheita e do engarrafamento são mencionados no rótulo. Pode ser consumido logo após a compra, pois a exemplo de todos os outros Tawnys, não envelhecem na garrafa.


Crusted - vinhos de várias colheitas, envelhecido 3 a 4 anos em madeira e depois engarrafado. Quando não filtrado, tende a formar depósito. 

LBV (Late Bottled Vintage) - vinho de uma só colheita, normalmente de boa qualidade, indicada no rótulo junto com o ano do engarrafamento. Envelhecido em madeira durante 4 a 6 anos, é filtrado antes do engarrafamento para evitar a criação de depósito. 

Vintage Character - engarrafado após o envelhecimento de 4 a 5 anos em madeira, tem a data da colheita indicada no rótulo. Não se beneficia com estágio prolongado em garrafa. 

Vintage de Quinta (Single Quinta Vintage) - vinho de uma só colheita indicada no rótulo e proveniente de uma determinada quinta e produzido somente em anos excepcionais. Engarrafados com 2 anos de idade, normalmente permanecem no estoque do produtor por até 10 anos. Vendido quando pronto para consumir, podem envelhecer ainda mais tempo em garrafa. 

Vintage - vinho de uma só colheita indicada no rótulo e de inigualável qualidade. É o vinho mais fino e raro, pois representa apenas 2% de toda a produção. Produzido com uma seleção dos melhores vinhos de um ano excepcional, representa apenas uma pequena parte da colheita. As suas opulentas características organolépticas correspondem a vinhos que dificilmente se conseguem em mais de 3 anos em cada década.



Nota: Parte do texto foi extraído de um artigo da ACAV.

In Vino Veritas!

GK

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A arte do Dão


Diz-se que o mundo está dividido entre consumidores de Cabernet Sauvignon e os que preferem Pinot Noir. Esta polaridade estilística é facilmente generalizada para incluir muitas outras castas tintas e regiões vinícolas: Bordéus vs. Borgonha; Syrah australiano vs. Syrah do Reno; Rioja vs. Ribera del Duero.


O verdadeiro cerne da questão é a preferência por vinhos de cor escura, encorpados, que cheiram e sabem a frutos negros (amoras, cassis, etc.), com uma estrutura firme de taninos – um estilo a que os franceses apelidam de “masculino”. Isto versus a preferência por vinhos mais delicadamente perfumados, mais leves, com notas de frutos vermelhos (cerejas e morangos), taninos finos e acidez refrescante – um estilo “feminino”, à falta de melhor nome. Após a minha primeira visita pela região do Dão fiquei impressionado como os vinhos tintos encaixaram tão bem no segmento dos Pinot Noir. Mais tarde, li que um perito do século XIX uma vez descreveu os vinhos do Dão como tendo um forte carácter de Borgonha, o que sugere que este traço estilístico está profundamente enraizado na região. E isso é bom, porque o Dão oferece claramente uma alternativa aos vinhos do Douro ou Alentejo que, obviamente, se inclinam para estilos mais fortes,masculinos. O que gosto no Dão é que muitas das castas não existem em mais nenhum lado no mundo e muitos produtores ainda utilizam antigos lagares de granito. Além disso, realço as vinhas antigas de plantações mistas que não foram arrancadas e replantadas como as vinhas na Califórnia ou na Austrália.

O Dão parece ter emergido de uma fase de transição e não está no meio de um período de experimentação, revitalização e redescoberta. O melhor é que permaneceu fiel às suas tradições, não perdeu a sua alma no processo.

A ELEGÂNCIA DO DÃO


Os estilos tintos do Dão são definidos pelas suas castas (Touriga Nacional, Roriz, Alfrocheiro, Jaen e Rufete), os solos de granito que fazem com que retenham a sua acidez natural e um clima que é mais fresco e chuvoso que no Douro e no Alentejo. Tudo isto faz com que preservem tanto a “frescura” como a longevidade pelas quais os tintos do Dão são famosos. As castas são muito interessantes. Ao contrário do que se costuma pensar, as pesquisas de ADN confirmaram que a Touriga Nacional teve origem no Dão e migrou depois para o Douro. Não contentes por roubarem um pouco da mística do Douro, as pesquisas também sugerem que a Baga teve origem no Dão antes de passar para a Bairrada. E, apesar de se poder assumir logicamente que a Roriz tem estado no Dão há muito tempo, parece que tal só aconteceu nos anos 90 do século XX. As castas mais tradicionais são a Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen e Rufete. Destas, a Touriga é a que reina, com aromas mais pronunciados, fragrâncias florais de violeta e um carácter mais definido, elegante e linear do que o encontrado em regiões mais quentes. E, enquanto a Touriga permanece o factor dominante nos “blends” do Dão, são as outras castas que necessitam de maiores cuidados. Luís Lourenço, da Quinta dos Roques e da Quinta das Maias, começou por fazer monocastas de Alfrocheiro e Jaen “para perceber o carácter de cada casta”, porque “não aceitava que tal não se pudesse fazer” só porque não era prática comum. O resultado é que uma grande parte de produtores está agora a fazer vinhos monovarietais, destas e de outras castas, muito convincentes. A solução tem sido encontrar o solo e o clima correctos para cada casta, de maneira que possa mostrar o seu melhor e manter-se sozinha. Jorge Brites, o enólogo do Centro de Estudos Vitivinícolas em Nelas, explicou a situação da Jaen: “Muitas vezes tem sido plantada em sítios errados, por isso é que não era respeitada nem considerada como uma casta principal.” O problema é que no sul do Dão amadurece demasiado rápido, faltando-lhe cor e estrutura. Por lhe faltar acidez foi relegada para um segundo plano, para acrescentar aroma e álcool ao “blend”.

Mas, se for plantada no norte e a uma maior altitude, mais fresca, a Jaen amadurece duas semanas mais tarde e, por isso, desenvolve uma cor mais escura, aromas mais profundos, taninos finos e uma acidez mais firme. O amadurecimento mais lento é a chave para fazer um vinho mais completo. O desafio tem sido encontrar o local certo para dar ao Rufete e ao Alfrocheiro uma oportunidade para igualmente se “manterem sozinhos” como vinhos. Os vinhos 100% Jaen mais convincentes que tenho provado são produzidos por Terras de Tavares de Pina, Quinta das Maias, Quinta do Lemos e Quinta das Marias. Enquanto os actuais colheitas de 2007 são mais maduros, audaciosos e ricos, na maior parte dos casos prefiro os vinhos da colheita mais fresca de 2006, que são mais equilibrados, com mais fruta e mais sedosos. A colheita de 2008 que provei, e que ainda não saiu para o mercado, foi mais baixa e fresca. Os vinhos têm uma relação de estilo muito clara com a de 2006, mas têm aromas mais complexos e uma melhor concentração. De forma semelhante, os melhores produtores de Alfrocheiro que provei foram a Quinta das Marias, Quinta dos Carvalhais, Quinta dos Roques e Borges. Todos partilhavam maravilhosos aromas e sabores a cereja, texturas sedosas e acidez frutada – qualidades que recordam a Gamay do Beaujolais ou um bom Pinot Noir do Novo Mundo.


O melhor para mim foi a possibiliddae de provar colheitas de 1997 de Terras de Tavares de Pina, Quinta das Maias e Quinta dos Roques. Em todos os casos, notas de fruta vermelha e uma acidez brilhante tinham dado lugar a aromas saborosos e intrigantes, texturas cremosas e finais longos. Os vinhos lembravam-me Borgonhas bem feitos e Grandes Reservas da Rioja. Se eles envelheceram tão bem a partir destas versões iniciais, até onde chegarão os vinhos de hoje?



Fonte: Paul White p/ Wine a Essência do Vinho

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Água Mineral, mais de 3.000 marcas em todo mundo!



Não estamos falando de uma substância química. Muito mais do que algo essencial à vida, falamos de uma forma de viver. De um estilo de vida. De uma forma de apreciar tudo de maneira diferente. Uma garrafa de água pode ser um pedaço de paraíso, permitindo-nos fazer uma imensa e completa viagem por cada ponto deste planeta onde haja uma gota de água pura, levando-nos a apreciar águas distintas de origens geográficas múltiplas, sempre puríssimas, com características intrínsecas, apropriadas aos mais diversos momentos e utilizações. 

Este elemento que se repete eternamente no seu ciclo, azulado e inodoro, mas não sem sabor – só que pouco perceptível – cobre, para já e se tivermos cuidado, 71% da face da Terra. É curioso que seja nessa mesma proporção que a água componha também o corpo humano, garantindo o desenrolar de vários processos metabólicos fundamentais, tais como a hidratação básica, a digestão e a solvência (neutralizando os ácidos excedentes), a respiração (pela manutenção de uma reserva oxigenada importante), ou a simples capacidade higienizadora e antibacteriana ou vírica. 

Existem diferentes águas para diferentes efeitos. Não só para beber, a água é honrada e venerada desde há milénios. Em Portugal, origem deste artigo, existe uma longuíssima cultura de termas, muito anterior às famosas termas romanas. É aí que sentimos toda a força das nossas típicas águas muito mineralizadas. E foi em torno dessas fontes que muitos dos pontos turísticos portugueses criaram raízes. Aliás, o ideal seria consumirmos as águas sempre na sua fonte ou no seu manancial de origem. Mas tal nem sempre é possível e, além disso, a atividade de engarrafar a água tornou-se demasiado conveniente, eficaz e organizada. Daí a oferta atual do mercado, as mil e uma águas que estão ao seu dispor – concretamente mais de três mil marcas em todo o mundo! –, que permitem usufruir de diferentes valências, dos seus distintos sabores, dos seus discretos efeitos, das características específicas dos locais onde cai do céu, ou de onde brota do solo. 

A diferente origem da água, o seu percurso geográfico, o tipo de subsolo por onde passa e onde se mantém, para além dos locais em que emerge ou é captada, criam os diferentes “blends” de elementos, minerais e gasosos, que conferem à água específicas propriedades e sabores. Como e quando fazer uso desses diferentes resultados é algo que pode descobrir por si – nada como fazer uma prova de águas para perceber que não só têm um sabor diferenciado, como também um peso, textura e corpo peculiares. Prove e comprove…

Águas de todo o mundo: 15 grandes marcas

Além dos gigantes que inicialmente instigaram este mercado, como as marcas Vittel, Perrier ou Evian, pode hoje encontrar uma diversidade inimaginável de marcas de água capazes de satisfazer – mais do que a mera curiosidade – a exigência do “gourmet” conhecedor. Assim é nos restaurantes de qualidade, que provavelmente irão evoluir para a presença de “sommeliers” especializados em águas, enquanto as lojas “delicatessen” já incluem um leque de escolhas raramente inferior a uma boa dúzia de marcas, quer de Portugal quer do estrangeiro, e organizam provas exclusivas. E até os supermercados garantem o acesso a uma opção criteriosa e diversificada, cada vez mais distante do mero condicionamento do preço. A verdade é que a água atingiu um patamar de estrelato entre os produtos “gourmet”. Vejamos alguns bons exemplos:

ELSENHAM 

Água riquíssima em minerais, particularmente cálcio e ferro, a britânica Elsenham apresenta-se numa elegantíssima garrafa que ronda o luxo, sendo especialmente benéfica para a densidade óssea. Mantida pela Natureza num lago subterrâneo com um raio de 300 metros que outrora esteve debaixo do mar, é uma das águas mais puras que se pode encontrar. Pode comprá-la nalgumas lojas “gourmet” e em Spas de muita qualidade. Custa 10,70 euros em Portugal.

FIJI 

Atravessando o Pacífico até às ilhas Fiji, esta água é purificada pelos ventos. Aí, protegida pelas rochas vulcânicas, acumula uma específica mistura de minerais e de sólidos, no vale Viti Levu, longe de todos os outros continentes e da poluição, sendo engarrafada dentro do aquífero – na fonte –, assim evitando-se que tenha contacto com o meio ambiente, pois só volta a sentir a atmosfera quando é aberta para consumo. Trata-se da única água que Cameron Diaz e Tom Cruise dizem beber. E comprovando a sua exclusividade, dada a sua escassez, este ano ainda não foi colocada no mercado europeu. 
Custa 5 euros em Portugal. .

SAN PELLEGRINO

Rica em minerais, a San Pellegrino é uma água carbonada mineral engarrafada desde há 600 anos nas Termas de São Pelegrino, em Milão, proveniente de três fontes distintas que emergem a 22 graus. Após uma subida de 400 metros, desde a rocha vulcânica abaixo do solo onde se encontra, a San Pellegrino é posteriormente filtrada para que apresente um composto mineral equilibrado. Pode encontrá-la com facilidade em diversos pontos de venda e nalguns restaurantes. 
Custa 2 euros em Portugal.

CLOUD JUICE

Cerca de 400 vezes mais pura do que mandam os “standards” da Organização Mundial de Saúde, a Cloud Juice, tal como o nome indica, é pura água da chuva. Um litro de Cloud Juice contém cerca de 9.000 gotas de chuva caídas de nuvens que viajaram 11 mil quilómetros desde o grande mar do Sul até às verdes ilhas King, entre a Tâsmania e a costa sul da Austrália. Pode imaginar-se algo mais puro? 
Custa 6,25 euros em Portugal.

1Litr 

Será difícil resistir à sedução da embalagem revolucionária da água 1Litre – que pode (e deve!) levar consigo, e que inclui um copo. Trata-se de uma água proveniente do coração do Canadá e que tem um equilíbrio mineral óptimo. 
Custa 4,8 euros em Portugal.

SAINT GEORGES 

Se for particularmente sensível ao “design”, não lhe passará despercebida a nova garrafa “pet” da Saint Georges, desenhada por Phillip Stark a partir de uma antiga garrafa romana de remédio que o conceituado “designer” francês encontrou numa farmácia da Córsega. A tampa é preta, sugerindo a origem da água – a própria Córsega –, e trata-se de uma água levíssima, sem nitratos, proveniente de uma fonte granítica localizada a mais de mil metros acima do nível do mar. 
Custa 5 euros em Portugal.

GLACIAR 

Embora em Portugal não vejamos, ainda, grandes projectos de “design” associados às embalagens de água, a verdade é que, falando da matéria-prima propriamente dita, temos alguns segredos bem guardados. É esse o caso da água Glaciar, proveniente da zona protegida do Parque Natural da Serra da Estrela, onde a poluição dificilmente chega, pois é captada a 1400 metros de altitude. Trata-se de uma das mais leves águas portuguesas, porque percorre especia  ente rocha granítica, que lhe confere poucos sedimentos. Esta é baratinha, encontrada a 0,20 EUR na Europa.

MONCHIQUE 

Mais a sul de Portugal, sob as termas ali existentes, é captada neste oásis algarvio de extraordinária beleza natural – a Serra de Monchique – uma água conhecida pelas suas propriedades medicinais, bicarbonatada, sódica e rica em flúor, elementos que lhe foram concedidos pelo contacto com sienitos, nefelinicos e xistos muscovianos. Brevemente, a água de Monchique vai surgir no mercado com uma embalagem “gourmet”. Outra que também é barata, por 1 EUR você compra um garrafão.

E no Brasil, será que esta moda pega? Quem sabe não pode ser um novo segmento de mercado a ser explorado? Quem viver verá!

Fonte: Essência do Vinho

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Existe Vinho Doce que não dê dor de cabeça? Sim e são deliciosos! Vamos entender um pouco mais?




Passei por uma situação curiosa em um casamento de uma amiga. O casamento foi daqueles inesquecíveis, aonde absolutamente todos os detalhes foram tratados com o máximo cuidado e bom gosto. Além da cerveja, whisky e open bar, inicialmente foi servido um delicioso Proseco. Para acompanhar o jantar serviram um belo vinho chileno. Como não conhecíamos muitas pessoas além dos noivos, sentamos em uma mesa com o outras pessoas. Quando o garçom veio servir o vinho tinto escuto a seguinte pergunta: “-Moço, este é o seco ou o docinho?”! É claro que me deu vontade de rir, mas, para a maior parte das pessoas em nosso país, esta ainda é a realidade quando o assunto é vinho. Os conhecidos são os vinhos de uvas americanas que, quando se apresentam doces, este doce é obtido através da adição de açúcar. São vinhos simples que, também em sua grande maioria, não trazem grande preocupação em seu processo produtivo e acabam sendo até danosos a saúde.

A boa notícia é que existem sim vinhos “docinhos” que são fabricados naturalmente e, acreditem, são deliciosos e muito, mas MUITO melhores do que estamos acostumados a encontrar.

Antes de seguirmos com a explicação, vale lembrar resumidamente como que o vinho é produzido! A uva é colhida madura e dela é feita um suco. Como a uva é doce, este suco possui um alto teor de açúcar. Na sequência este suco passa por um processo de fermentação. Para quem não sabe, a fermentação é um processo de transformação de uma substância em outra, produzida a partir de microorganismos, tais como fungos, bactérias, ou até o próprio corpo, chamados nestes casos de fermentos. A Fermentação alcoólica é um processo biológico no qual açúcares como a glicosefrutose e sacarose são convertidos em energia celularcom produção de etanol e dióxido de carbono como resíduos metabólicos. Ou seja, o açúcar vira álcool e é por isto que a grande maioria dos vinhos é seco!

Existem várias maneiras dos produtores fazerem vinhos doces, porém, os melhores são aqueles em que o açúcar provém da própria uva, diferente do que estamos acostumados aqui no Brasil. Seja porque são feitos de uvas ultra-maduras (colheita tardia ou “late harvest” no Novo Mundo), secas (os recioto na Itália e o vin de paille na França), congeladas na videira (eiswein na Alemanha e Áustria e o ice wine no Canadá) e os maravilhosos néctares obtidos da podridão nobre (“good botrytis” em inglês, “pourriture noble” em francês, “edeliäule” em alemão e “muffa” em italiano), em que as uvas maduras de algumas regiões (Sauternes, Montbazillac, Loire e Alsácia na França; Tokaji na Hungria; Alemanha; Áustria e Itália) são atacadas por um fungo – Botrytis Cinerea, sob condições climáticas adequadas (manhãs com névoas e tardes secas e quentes).

Os vinhos fortificados – Porto e Madeira portugueses, o Málaga espanhol e o Marsala italiano, nos quais se adiciona álcool antes de se completar a fermentação, paralisando-a, possibilita a presença de quantidades significativas de açúcar não fermentado, mostrando-se doces e fortes. Na França, essa mesma técnica (adição de álcool) é utilizada para se fazer o “vin doux naturels”, como o Moscat de Beaumes–de–Venise (o mais interessante), Muscat de Riversaltes, Maury e o Banyuls (famoso por se dizer que é o melhor que se “casa” com chocolate). No Xerez e o Montilla doces, a adição de álcool se dá após a fermentação completa, sendo adocicado pela adição de um concentrado de xarope de uva.

O que são vinhos botritizados? Ricos, suculentos, luxuriantes, voluptuosos, doces, viscosos, surpreendentemente refrescantes, longevos são alguns dos predicados que normalmente se utilizam quando se degusta um Sauternes (nem todos são atacados pela Botrytis), um Beerenauslese e Trockenbeerenauslese alemães e austríacos, um Tokaji húngaro e um Sélection de Grains Nobles alsaciano, dentre os maiores. Alguns vinhos do Novo Mundo são botritizados de uma maneira “artificial”, pulverizando as uvas colhidas com esporos de Botrytis em um local, em que se tenta simular as condições ideais do processo da botritização. A botritização natural se dá de modo que as uvas maduras nas parreiras se mostram secas, com alto teor de açúcar e complexidade, obtendo vinhos doces com uma untuosidade ímpar e perfeita acidez para contrapor a maciez (álcool e doçura).

O que são vinhos “Late Harvest”, ou de colheita tardia? Como o próprio nome diz, o produtor, não podendo contar com a Botrytis, retarda propositalmente a colheita, até que as uvas se mostrem muito maduras, portanto, com alta concentração de açúcares. É a maneira mais utilizada pelo Novo Mundo para produzir vinhos doces. Muitos Sauternes baratos, que não são atacados pela Botrytis, são feitos dessa forma, assim como o Jurançon e muitos outros brancos doces do sudoeste da França (Montbazillac usuais ou de anos não excepcionais, etc).

Em algumas regiões do mundo (Alemanha, Áustria e Canadá), propositalmente, deixam-se as uvas congelarem nos cachos e, colhidas na época certa, são prensadas antes do degelo (colhidas na madrugada, antes de o sol aparecer). O resultado é um caldo doce, com muito boa acidez e teor alcóolico baixo. A água permanece na prensa, sob forma de cristais. Esses vinhos, obtidos por congelação natural devido ao clima da região, assim como os botritizados, são raros e caros.

Após a colheita das uvas, uma outra maneira de se fazer vinho doce é deliberadamente espalhá-las em tabuleiros, telinhas ou pendurá-las para secar. Esse é um outro método, em que se concentra doçura nas uvas, pela perda da umidade (água), por evaporação, fazendo-as ficarem secas. O nordeste da Itália, Áustria e França (vin de paille), são os locais em que esse processo, na produção de vinhos doces, pode ocorrer.

Interessante, não? Aqui no Enoleigos você pode conferir alguns destes vinhos.

In Vino Veritas!

Gustavo Kauffman (GK)
           

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Azeite: Conheça mais este verdadeiro Ouro Líquido



Com matizes aromáticas notoriamente especiais, existe um ingrediente com um nome e um lugar muito próprio na gastronomia: o “ouro líquido” de Homero, que constitui hoje, numa seleção ordenada de regiões e em diferentes tipos, o começo da refeição em alguns dos melhores restaurantes do País.

Trata-se de uma apropriadíssima designação, “ouro líquido”, ou não tivesse servido o azeite, durante séculos, como real moeda de troca nas mais variadas sociedades – desde logo na nossa península, onde já com os visigodos, pensando precisamente na produção de azeite, foram criadas normas que penalizavam a destruição das oliveiras. Vale mesmo a pena deixar-se envolver na redescoberta deste alimento extraído do fruto da “olea europaea”, numa verdadeira prova cega. Distribua os vários azeites por pequenos copos de vidro, aconselhavelmente escuros, assim evitando que a cor dos azeites influencie a sua percepção sensorial. Vá dando pequenos goles, alternadamente, deixando que o azeite em prova se espalhe por todo o interior da sua boca. E descortine a sua acidez, a doçura, o sal que contém e a suave gordura, o eventual sabor frutado, se é mais ou menos maduro, o oxigénio que entretanto adquiriu, e quase adivinhando as suas tonalidades… qual prova de vinho! Permita-se entender como os azeites mais verdes têm aromas mais frutados. Ou saber por que é que os sabores metálicos ou avinagrados são detalhes de qualidade negativos. Ou, ainda, a razão pela qual o picante ou o gosto amargo indiciam a presença de polifenois, tal como no vinho, que no azeite também pode desfrutar, com o acompanhamento adequado. Faça uma viagem pelos azeites portugueses, de região em região, e descubra por si mesmo que os transmontanos evidenciam frutos secos no aroma, embora picantes; que os ribatejanos – sendo colhidos com as azeitonas já bem maduras, como corretamente sublinhou o chefe Vítor Sobral – são encorpados e de sabor a fruta doce; que os beirões são moderados e tranquilos; e que os alentejanos são frutados, embora os encontre também picantes, mais na parte norte do Alentejo – tal como em Moura, cujos azeites evocam maçã, mas têm um amargo distintivo.

Pode ir um pouco mais longe, prosseguindo viagem por Espanha, para reconhecer “castas” olivais distintas e mimadas, como por exemplo a apreciada Arbequina (mais fácil de encontrar na zona de Lerida e em Tarragona, na Catalunha), cujas pequeninas azeitonas dão origem a azeites com matizes fortes e equilibradas, azeites amendoados que lembram vegetais da horta e permanecem longamente na boca. Não vai esquecê-los! Continue esta deliciosa viagem por Itália, cujos azeites, intensamente verdes na cor e grossos no cair – porque feitos com azeitona muito madura, o que lhes confere uma textura frutada e mais redonda –, revelando maior ou menor acidez, são fantásticos para usar, por exemplo, em cozinhados quentes.

Dê agora um salto ao outro lado do globo, à Austrália. Trata-se de um enorme e variado produtor de azeites, que se caracterizam, fundamentalmente, pela sua leveza e doçura – o que pode chocar o consumidor português, mais habituado a azeites fortes e encorpados. Mas não deixe de provar, se puder, azeites produzidos na América do Sul, sobejamente apreciados e com características similares aos azeites portugueses, e escolha o vinho adequado ao azeite utilizado na concepção gastronómica, considerando que os vinhos tintos de taninos francos e abertos – bem como a generalidade dos vinhos jovens – solicitam pratos confeccionados com azeites mais leves, frutados e doces.

Como usar o azeite… com todo o prazer

Para além do grau de acidez do azeite, no momento da compra verifique qual é a sua região de proveniência, com o objetivo de percepcionar as diferenças de sabores e aromas, e nunca se esqueça de verificar o prazo de validade, que deve ser de 12 meses, no máximo. Se puder, escolha garrafas mais escuras, que evitem que a luz deteriore o produto. Fuja também das latas cujos pontos de solda possam provocar oxidação interior.

Armazene este “ouro líquido” com todo o cuidado – num local escuro e seco –, preferencialmente em recipientes hermeticamente fechados de vidro ou de aço inoxidável. Quando utilizar o recipiente, abra-o e feche-o rapidamente, evitando ter o azeite em contato com o ar demasiado tempo, pois o oxigénio destrói algumas das suas qualidades – além de que o azeite é, por si próprio, muito “influenciável” pelo meio ambiente, assimilando facilmente sabores e aromas de outros alimentos. No uso doméstico, evite depositar azeite em galheteiros que ainda contenham azeite mais antigo. Será um desperdício, definitivamente, um prejuízo para a qualidade do novo azeite. Procure galheteiros tão pequenos quanto possível, e lave-os muito bem antes de novo depósito.

Pelas suas benéficas características organolépticas, experimente usar o azeite de novas formas, por exemplo nas receitas que habitualmente faz com outra gordura (bolos, fritos, bolachas e biscoitos). Não são completa novidade as receitas de doces que utilizam azeite, mas ouse experimentar, por exemplo, pôr uma colherzinha de azeite num delicioso bolo de chocolate quente… e verá que ficará ainda mais delicioso.

Utilize azeites mais claros, menos encorpados e doces para acompanhar saladas frias, por exemplo, ou pratos de carnes brancas e peixes. Do mesmo modo, prefira os mais grossos, aromáticos e picantes para confeccionar pratos de carnes vermelhas (por exemplo, o cozido à portuguesa) ou peixes mais carnudos, como o bacalhau. Um azeite infusionado pode ser uma excelente solução de tempero ou, simplesmente, servir de aperitivo para molhar fatias de pão rústico. Se forem de efetiva qualidade, os azeites infusionados obtêm-se pela adição de um determinado ingrediente que irá macerar, durante todo o resto do seu tempo de vida, até ao momento do consumo. E encontram-se no mercado excelentes marcas de azeites infusionados: com trufa, malagueta, casca de tangerina, limão, ervas silvestres, frutas, especiarias… mas tenha cuidado: os azeites infusionados são diferentes dos azeites aromatizados, que não se obtêm necessariamente com o produto natural, o que faz toda a diferença.

Vantagens para a saúde humana

Para além de estimular um conjunto de sensações olfativas-gustativas riquíssimas, o azeite é ainda melhor do que se poderia pensar para a saúde humana, designadamente porque…

x Tem um elevado valor nutritivo, incluindo não apenas a gordura, mas vitaminas e substâncias nutrientes e antioxidantes naturais.

x Aliás, como antioxidante potente contribui para a manutenção de uma atividade cerebral sadia no processo de envelhecimento.

x É a gordura menos sujeita a altas temperaturas e a que melhor se conserva ao longo do tempo.

x Não eleva a taxa de colesterol, sendo por isso um esteio alimentar no combate às doenças cardiovasculares.

x É facilmente digerido e funciona como espécie de “penso” de proteção gástrica.

x Proporciona a mineralização dos ossos.

x Pode considerar o azeite, com toda a propriedade, um excelente protetor e regulador do equilíbrio do corpo.

Esqueça alguns mitos!

x Nem todo o azeite mais caro é melhor.

x Nem sempre a baixa acidez determina a qualidade de um azeite.

x A diferença de cor de uma garrafa para outra, embora da mesma marca, não corresponde necessariamente a diferença de qualidade.

A acidez do azeite

Pode pensar-se que a chamada “acidez” do azeite é perceptível sensorialmente. Mas não. É algo apenas perceptível laboratorialmente, uma vez que se trata de um ácido específico – o ácido oleico – e não de uma acidez equivalente, por exemplo, à acidez conferida pelo ácido cítrico, presente nas laranjas ou nos limões. Um dos principais efeitos da acidez oleica na alimentação é o de provocar difícil digestão desse alimento. Daí a preferência por azeites com baixos níveis de acidez.

AZEITE EXTRA VIRGEM

Acidez nunca superior a 0,8 por cada 100 gramas.

AZEITE VIRGEM

Acidez máxima de 2 gramas (por cada 100).

AZEITE LAMPANTE

Neste estado, não é adequado ao consumo. Azeite com acidez livre razoavelmente elevada, superior a 2 gamas.

AZEITE REFINADO

Dos azeites ditos virgens, existem azeites com uma determinada quantidade de impurezas e, eventualmente, com uma acidez mais elevada, mas que se consideram passíveis de recuperação através de um processo de refinamento que pode incluir a descoloração e desodorização. Obtém-se assim o azeite refinado. Mas o azeite produzido segundo as regras da agricultura biológica e cujos processos de extração são mais suaves, têm algumas vantagens nutricionais em relação ao azeite refinado.

Curiosidades

x Existem inúmeras variedades de oliveiras. A sua idade mais fértil, em termos de quantidade e qualidade de azeitonas, situa-se entre os 35 e os 150 anos.

x A oliveira sobrevive em terrenos normalmente áridos, se necessário for, mas precisa de uma época do ano em que consegue hidratar-se eficazmente.

x A azeitona verde não é uma variedade diferente da azeitona preta: a cor tem somente a ver com a maturação e o momento da colheita. Na Primavera, colhem-se frutos naturalmente verdes, pouco maduros; ao longo do ano, até meados do Outono, é possível colher a azeitona num estádio mais evoluído de maturação, quando se apresenta acastanhada ou negra e azulada.

x Porque se trata de um fruto que contém água vegetal, que fermenta, e azeite, que oxida (20 por cento da azeitona é o seu azeite), qualquer demora entre a sua apanha e o processo produtivo de engarrafamento faz deteriorar o produto.

x Tão rapidamente quanto possível, a azeitona deve ser escolhida, classificada e levada à prensa (de pedra, preferencialmente), na qual se separa o azeite e a pasta da polpa, pele e caroço. O melhor dos azeites é aquele que sai desta primeira prensagem a frio.

x Através de processos de extração, depuração ou refinação, os azeites podem ser virgens ou refinados. Para serem virgens, são obtidos exclusivamente por processos mecânicos ou outros processos físicos, tais como lavagem, decantação, centrifugação e filtração.

x Com cinco quilos de azeitonas, em média, mas dependendo do seu tamanho, consegue fazer-se um litro de azeite virgem.

Fonte: Wine A Essência do Vinho

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O último artigo de Jay Miller para a Wine Advocate: “Argentina: Summing Up”



Muitos já devem saber que, depois de um grande escândalo, o Jay Miller não está mais na Wine Advocate.

Jay era responsável pelas regiões do Oregon, Washington, Espanha, América do Sul e os Portos Vintages.

O escândalo envolveu uma denúncia que Jay daria boas notas aos vinhos espanhóis em troca de dinheiro. A denúncia não foi comprovada, mas pouco tempo depois Jay anunciou sua saída da Wine Advocate. Quem assumirá os vinhos da América do Sul será Neal Martin.

Pouco antes de sua saída, Jay Miller, que escrevou sobre os vinhos Argentinos por 5 anos, fez um artigo que achei bastante interessante e transcrevo aqui para vocês:

Argentina: Summing Up

This is my final report on Argentina for The Wine Advocate, as I have decided to wind down a little and return to a less demanding job of consulting and working at my old retail shop, Bin 604 Wine Sellers. Over the last 5+ years, the region has undergone dramatic changes. When I did my first review in 2007, I covered more wines from Argentina than had been reviewed in the first 28 years of this journal. Now Argentina, depending upon the latest statistics, is one of the top three importers to the USA market, along with Spain and Chile.

Based on what I have heard and observed, things are looking bright for Argentina. The USA market in not saturated. As the economy gradually improves, Argentina can reasonably expect that its more expensive wines (those over $20) will gradually gain traction and sales of its value priced wines will continue unabated.

Qualitatively, this is how things stand from my perspective after extensive tastings in Argentina and stateside:

The Top Producers (5*):

Achaval-Ferrer
Alta Vista
Catena Zapata
Vina Cobos
Luca
Mendel
O. Fournier
San Pedro de Yacochuya

The Next Best (4*):

Viña Alicia
Altamira de los Andes
Altocedro
Susana Balbo
BenMarco
Luigi Bosca
Bressia
Bodegas Caro
Colomé
Cuvelier Los Andes
Bodega F. DuPont (pending more vintages)
El Enemigo
Enrique Foster
Finca La Luz
Marchiori & Barraud
Montviejo
Bodega Poesia
Pulenta Estate
Riglos
Finca Sophenia
Bodegas Tacuil
Tematico
Terrazas
Trapiche
Vistalba

The Best Wines:

Achaval Ferrer single vineyard cuvées
Viña Alicia Malbec Brote Negro
Alta Vista Alto
Luigi Bosca Icono
Catena Zapata single vineyard and Nicolas Catena cuvées
Vina Cobos uNico
Colomé Reserva Malbec
Cuvelier Los Andes Grand Malbec
Finca Flichman Parcela 26
Mendel Finca Remota
Nieto Senetiner Bonarda Limited Edition
Poesia
Terrazas Cheval Des Andes
Trapiche Single Vineyard Malbecs

The Best Value Wines:

Altos Las Hormigas Malbec Clasico
Clos de Los Siete
Viña Cobos Felino cuvées
Crios
Don Miguel Gascon Malbec
Lamadrid
Felix Lavaque Felix Torrontes
O. Fournier Urban Uco
Rutini varietals
Tikal Patriota

—Jay Miller

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Castas Portuguesas - Um patrimônio que precisa ser preservado!



Patrimônio de Portugal, mas também patrimônio da humanidade, herança genética universal, espólio de estudo e preservação obrigatória para o futuro e o bem comum das gerações vindouras. Uma alegre e gorda ventura que acarreta deveres e obrigações, constrangendo a um esforço real para preservar e salvaguardar o trabalho de séculos de evolução da natureza. Porque fomos bafejados com tamanha sorte, com tamanha abastança e variedade de castas vinícolas, numa riqueza que surpreende todos os iniciados nas artes da viticultura, é uma pergunta a que poucos saberão responder.

Portugal sempre foi um país de fortes tradições vitícolas, condição congênita à identidade e cultura nacionais. É impossível imaginar Portugal sem vinha e sem vinho. No entanto, e apesar da estreita ligação entre homem e vinha, o estudo do vinho e da vinha raramente fizeram parte das nossas inquietações enquanto povo. Convivemos historicamente com o vinho, numa relação natural e descomplexada, sem prestar especial atenção aos valores da natureza, à riqueza e diversidade de castas, num misto de alheamento, candura, ignorância e ingenuidade cultural.

Durante séculos fizemos vinho e plantamos videiras com a espontaneidade própria da inocência, sem perceber verdadeiramente o que diferenciava as castas, sem seleccionar as melhores varas, sem prestar especial relevância às diferentes variedades e propriedades de uvas. De forma absolutamente empírica, fruto de uma ligação muito próxima à terra, sem qualquer abordagem científica ou metódica, o homem foi privilegiando algumas variedades, nem sempre pelas melhores razões, nem sempre de forma sustentada e racional, com o saber da experiência, do ensaio de tentativa e erro. Não por acaso, a lógica vínica nacional, e também a europeia, sustenta-se na proximidade e coesão geográficas, na coerência de clima e solos, na identidade regional para definir regras e estilos, delimitando as denominações de origem históricas pelas circunstâncias e conjunturas geográficas. Durante séculos, ninguém se preocupou saber em que variedades de uvas assentavam os vinhos do Minho, os vinhos do Dão ou o Vinho do Porto. Durante séculos poucos ou nenhuns souberam o nome das variedades de uvas, inquietação menor para quem tinha de lidar com tantas variáveis. Durante séculos desconhecemos a imensa riqueza ampelográfica que a natureza generosamente acumulou por terras portuguesas, de norte a sul, do interior ao litoral. Durante séculos vivemos alegres e despreocupados, numa era onde o conhecimento da vinha era tema pouco valorizado.

Nos anos 70 do século passado, há apenas trinta anos, ainda sabíamos pouco, muito pouco, sobre as castas nacionais, sobre o potencial latente de cada variedade, sobre a sua distribuição geográfica, as suas variações, as características e peculiaridades de cada clone. Persistia um enorme trabalho de campo para efectuar, num mundo científico e empresarial sedento de conhecimento, num sector desesperado pela necessidade urgente de sistematização, inventariação e selecção do património vitícola português.

Três homens em particular, por entre tantos que contribuíram com o seu empenho para esta verdadeira causa nacional, destacaram-se pelo envolvimento, dedicação e persistência. Foram eles Antero Martins, professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), Nuno Magalhães, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e Luis Carneiro, da Estação Agronómica Nacional, três homens procedentes do meio académico, progenitores de um dos maiores estudos de investigação e sistematização da viticultura internacional.

TRIBUTO AO ENSAIO E INVESTIGAÇÃO

Começaram os primeiros ensaios e os primeiros cometimentos em 1978, ainda de forma informal, sem qualquer associação rígida ou institucional, sem o peso das fundações ou do financiamento público. Numa época onde o conhecimento perdurava demasiado limitado, e partindo de premissas relativamente simples, começaram o projecto pelos princípios básicos, pelas fundações, pela identificação das principais variedades, pelo estudo e identificação dos diferentes clones, pelos ensaios mais simples e práticos, pelas pesquisas que prenunciavam maior relevância pública e económica. Para poder levar a cabo uma empreitada tão ambiciosa, precisavam de campos de ensaio, de terra, de vinhas onde pudessem sustentar as muitas experiências a que se tencionavam devotar.

E foi aqui que se deu um dos primeiros milagres deste trabalho extraordinário, numa rara confluência de interesses entre o sector privado e as universidades, uma parceria entre a comunidade científica e o mundo empresarial, entre a produção e a investigação, numa associação entre dois mundos que tradicionalmente vivem apartados e desfasados. Cerca de uma centena de produtores aceitaram ceder pequenas parcelas das suas vinhas para serem usadas como campos experimentais, viabilizando a missão, resolvendo de vez uma das maiores dificuldades do projecto.

Uma convivência salutar que, infelizmente, ainda hoje é rara dentro de portas. Com a ajuda de diversos produtores, dispersos por todo o país, instalaram e lavraram em cerca de cem campos experimentais esparsos pelo continente e ilhas, pequenas parcelas roubadas à produção e dedicadas à investigação, embebidos numa atitude filosófica de pura filantropia. Porque é mesmo de abnegação e de esforço económico que estamos a falar, com os muitos produtores aderentes, quase todos anónimos, a terem de suportar integralmente os custos e inconvenientes de ter vinhas experimentais no campo, vinhas não produtivas, em prol de uma investigação para o bem comum, sem ganhos directos e imediatos para os produtores envolvidos. O trabalho de campo foi notável, com resultados por vezes surpreendentes, permitindo recuperar castas pouco valorizadas, resgatando do esquecimento algumas das castas que hoje julgamos fundamentais para a viticultura e enologia portuguesas. De entre os muitos sucessos obtidos, o caso mais mediático e feliz será certamente a proposta de recuperação da casta Touriga Nacional, devolvendo o brilho e a glória a uma casta então desprezada… que se encontrava à beira da extinção genética.

Hoje poderá parecer pura heresia, mas durante décadas, desde a calamidade da filoxera, a Touriga Nacional transformou-se em casta maldita, perdendo brilho e espaço, convertendo-se gradualmente numa casta pouco produtiva, uma casta menor, desalinhada e malquerida por quase todos os produtores do Douro e Dão.

Foi o trabalho paciente e metódico desta tripla de investigadores que consentiu o novo desabrochar da Touriga Nacional, seleccionando o melhor material vegetativo, isolando e cruzando clones, na procura de plantas que potenciassem a identidade da variedade. Como os tempos mudaram e quão frágil pode ser o equilíbrio da natureza e do homem! É quase arrepiante pensar que aquela que é indiscutivelmente a nossa casta bandeira, o símbolo maior de Portugal, era uma quase desconhecida há pouco mais de 20 anos, condenada ao arranque por toda uma geração de produtores e viticultores!

Quantas outras Touriga Nacional permanecerão escondidas, desvalorizadas por anos de negligência e desconhecimento, condenadas a um desaproveitamento das suas potencialidades?

Por essa altura já tinham formado uma teia nacional de estudo, selecção, classificação e investigação das variedades portuguesas, rede que, justificadamente, intitularam como Rede Nacional de Selecção da Videira. Trabalharam e estudaram intimamente 65 das castas nacionais, as que reuniam maior potencial de interesse comercial, identificando e catalogando um pouco mais de 15.000 clones, pequenas variações e desvios de cada variedade, património genético fundamental para a sobrevivência, evolução e prosperidade de cada casta. Apesar de sentirem orgulho pelo trabalho consumado, começaram a perceber que o projecto tinha chegado a uma encruzilhada, um impasse que obrigava a reflexões sérias e profundas. Apesar do mérito indiscutível dos trabalhos em curso, nunca se esqueceram das mais de 190 castas nacionais que permaneciam em risco, variedades para as quais ainda não tinham tido oportunidade e capacidade para prestar a devida atenção. E, porquê escondê-lo, começaram igualmente a sentir nos ombros o peso da responsabilidade, acusando o incómodo de tal desígnio nacional assentar maioritariamente em três homens, receando pela continuidade do projecto caso os infortúnios da vida levassem a melhor. Finalmente, e tal-qualmente preocupante, começaram a sentir o alheamento crescente por parte de empresas e produtores, o fermento de um desprendimento palpável, o cansaço financeiro das entidades privadas, fruto dos custos de um labor sem retorno directo para quem nele investia.

Mas, acima de tudo, começaram a aperceber-se dos riscos e sérios inconvenientes do trabalho que conduziam com tanto amor e respeito pela vinha, o travo amargo das consequências inesperadas do sucesso. Depois de 30 anos de dedicação total pela preservação da diversidade e riqueza das castas nacionais, perceberam que o mundo real seguiu um caminho divergente e inesperado. Fruto do trabalho de selecção e identificação das melhores castas e dos clones mais recomendáveis, a viticultura portuguesa assumiu um regime de monocultura, dedicando espaço para apenas uma mão cheia de castas e clones, desprezando e erradicando tudo o que divergisse da meia dúzia de castas mediáticas.

Assistiram com horror e enorme sobressalto ao arranque impetuoso de tantas vinhas velhas, num exercício irreversível de genocídio genético, condenando à extinção um número indeterminado de castas nacionais. Estima-se que em menos de uma década tenham sido sentenciadas ao extermínio, ou nos melhores casos à perda acelerada de diversidade e variabilidade genética, aproximadamente 120 castas portuguesas, variedades únicas e inexistentes em qualquer outro ponto do globo, capital da humanidade de reposição impossível. Pela primeira vez deste a alvorada da empreitada, sentiram a angústia do futuro e o peso da responsabilidade de tamanho desvio aos propósitos iniciais.

O projecto de preservação da vinha tinha-se transformado, ainda que involuntariamente, num dos principais agressores da diversidade da vinha.

OS MÉRITOS DE NÃO DESISTIR

Sentiram que o empreendimento precisava de se adaptar a novas necessidades e a uma nova realidade, insistindo na preservação urgente das muitas variedades ameaçadas, reforçando o financiamento e a sustentabilidade económica sob o mecenato de privados e do Estado, concentrando os estudos num campo próprio, dedicado exclusivamente à causa da defesa das videiras nacionais. Depois de muito esforço e dedicação, de muito empenho e muitas horas de persuasão, nasceu agora a Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira (APDV), proprietária de um campo experimental com 70 hectares em Pegões, cedido pelo Estado e pelo poder local, meca da investigação e salvaguarda do vastíssimo património ampelográfico português.

A financiar o novo desígnio, para além de diversos organismos oficiais e académicos, estão as empresas José Maria da Fonseca, Real Companhia Velha, Sogrape e a família Symington. A prioridade máxima, definida para os primeiros três anos, assenta na recolha de material vegetativo das castas em risco de desaparecimento, numa procura atrevida por varas das castas e clones em perigo de extinção. A segunda fase fundamenta-se na plantação do campo experimental, na implementação da vinha de acordo com os padrões científicos internacionais.

Numa terceira fase, dar-se-á início ao trabalho de selecção das castas, ao apuramento clonal, ao estudo científico, proporcionando sustentabilidade e racionalidade académica ao sector do vinho. Seguindo os padrões internacionais de estudo de material vegetativo, as diferentes castas serão divididas em três níveis de relevância. No primeiro nível, das castas com interesse económico directo, serão plantados 350 clones por variedade, com um mínimo de 20 plantas por clone. No segundo escalão, o das castas com pouco valor comercial e de potencial relativamente desconhecido, castas como o Alvarelhão ou o Bastardo, serão plantados 100 a 200 clones por variedade, com um número aproximado de seis plantas por clone.

Finalmente, no terceiro nível, o das castas já irremediavelmente perdidas ou mutiladas na variabilidade genética, castas virtualmente desconhecidas como o Pexém, Nevoeira Caínho ou Jampal, poderão, nos melhores casos, ascender aos 50 clones, com o número de plantas que for possível introduzir. E porque é tão importante esta necessidade de variabilidade genética, expressa no número de diferentes clones? Porque só esta multiplicidade e riqueza genética permitem que as plantas possam resistir a qualquer condicionante ambiental, a mudanças climáticas, doenças ou simples variações de mercado. Ora sabendo que a diferenciação de Portugal nos mercados internacionais assenta maioritariamente nas castas portuguesas e na difícil arte do lote, símbolos por excelência da especificidade nacional, melhor se percebe a relevância deste projecto épico que poderá agora começar a dar um contributo fundamental para a sustentabilidade dos vinhos portugueses. Sobretudo quando, tal como em todas as fases anteriores do projecto, se pretende partilhar o conhecimento, sem artifícios, sem segredos, abrindo a chave das castas portuguesas a toda a comunidade científica… e empresarial.

Um trabalho gigantesco e ambicioso da preservação e saber das castas nacionais, um projecto em que Portugal se afirma por direito próprio no pelotão da frente do conhecimento.

Fonte: Revista Wine, a Essência do Vinho
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