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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Uma breve pausa


Estávamos devendo uma satisfação a nossos queridos leitores. Muitos perceberam que nos últimos 2 domingos não colocamos os posts das "Crônicas de um Enoleigo", escritas pelo meu amado irmão Deco (AK).

A notícia ruim é que, devido a fortes apertos e compromissos profissionais, as Crônicas ficarão por um período curto de tempo, mas ainda indefinido, sem ir ao ar.

A notícia boa é que elas voltarão e, tenham certeza, muito melhores do que antes e com força total!

Ah, a foto não é uma montagem! Este vinho realmente existe. É um vinho português, do Alentejo que já andou ganhando alguns prêmios internacionais inclusive por seu rótulo e nomes tão originais!

In Vino Veritas!

Gustavo Kauffman (GK)

domingo, 15 de agosto de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 7


Há caminhos tortuosos que levam à estrada certa... O cavalo não passa selado duas vezes... Quando há uma chance, agarre-a. A quantidade de ditados desagradáveis que rondavam a cabeça de Alberto era incomensurável. Nem percebeu que o som ambiente da banca de jornal tocava a letra emblemática da Legião: “Se lembra quando a gente, pensou um dia acreditar, que tudo era para sempre, sem saber... que o pra sempre sempre acaba...”.

- Como pôde mudar tão rápido? (Pensou enquanto procurava alguma revista)

Estavam abraçados, na entrada da Vinheria. Ele iria anunciar a reserva, quando o celular dela tocou e rapidamente Suzana respondeu:

- Olá chefe! Não me larga nem no domingo?!?

Ele pediu silêncio com um gesto usual e foi para perto da calçada, mais ouvindo do que falando até que gritou:

- Eu não acredito!!!!!!! É sério?

Um sorriso iluminado tornou aquele rosto ainda mais belo. Então, finalizou o telefonema:

- Claro. Sim. Agora? Sem problema... Certo, certo. Combinado.

Foi em direção de Alberto com passos rápidos e lhe causou um susto quando disse:

- Precisamos voltar. Agora!
- Como?!? Passou a fome?
- Alberto, sem brincadeiras. Acabo de ser comunicada de uma promoção. Sigo para Milão amanhã e devo ficar por lá pelo menos uns seis meses. Não é o máximo?
- Sim, Parabéns!!

Ele tentou abraçá-la, mas a fria colega de almoço reapareceu e deu um passo atrás.

- Alberto. Vamos, agora!
- Mas...
- Sem “mas”! Ou você acha que uma transa vale mais que a Itália?

As palavras mais pareciam um soco na boca do estômago. E ele nem entendeu bem como a levou para casa, enquanto ela, ao telefone, contava a novidade radiante para uns amigos e familiares. Quando finalmente saiu do carro, ainda com o telefone no ouvido, mandou um beijo silencioso. Alberto quase pediu que ela descesse com o vinho que ficara no apartamento. Bobagem. Nem gostou dele tanto assim. Aliás, nunca mais compraria aquela garrafa. Pobres vinícolas que, mal sabem, não conseguem vender esse ou aquele rótulo para aquela ou essa pessoa apenas porque, no dia em que abriram a garrafa, algo ruim aconteceu.

O sábado que se anunciava com tantas possibilidades, terminou em uma banca de jornal. Alberto precisava comprar algo para ler, urgentemente. E entre revistas de corrida de carros achou algumas publicações sobre vinho. Melhor! Viu que a Folha de São Paulo publicava encartes sobre vinhos, separados por países. Foi até o caixa, onde uma ruivinha de média estatura aguardava seu troco. Perguntou:

- Você possui fascículos mais antigos?
- Sim.

A ruiva olhou com o canto dos olhos, transparecendo verde água. Pensou por qual motivo as pessoas liam sobre vinhos. Aliás, não sabia por qual motivo as pessoas liam sobre qualquer bebida. Na opinião de Daniela, bebida se bebe, não se lê. Usara essa frase na noite anterior... Sorriu por dentro pelo contexto.

- Que maravilha. Quero todos!

Já fora da banca examinava o belo rapaz comprado todos os fascículos. Ela queria apenas algo para passar o tempo até a semana de férias que gozaria na Argentina. E como gozaria! Conteve mais alguns risos, conseguindo ouvir a pergunta final:

- Tem um Pão de Açúcar aqui perto?

Figura, pensou. Seguiu em direção da Bela Vista. Tinha uma mala para arrumar.

(...continua...)

domingo, 8 de agosto de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 6

Antes de tudo uma advertência: não fui eu (AK) quem escreveu as introduções dos últimos posts contendo das crônicas! Tatau (GK) resolveu fazê-lo como se cada capítulo de um livro precisasse de um prelúdio. Apesar de eu ter lido uma obra com algo assim recentemente, prefiro ir direto ao ponto, dando continuidade ao capítulo anterior. É o que ocorrerá doravante.

Outra informação importante é que decidi não enfadar vocês com apenas um enoleigo. Como somos a maioria dos brasileiros, evitarei me afeiçoar por apenas um personagem, suas limitações e peculiaridades. Vejam o caso do Alberto. Ficamos presos ao universo masculino, de classe média, jovem etc. Optei por juntar uma vida em outra e, após, seguir com a diversão ou (quem sabe?) algum drama, sempre no mote do enoleigo. Espero que gostem.

Quem sabe um dia todos os enoleigos que se cruzaram por aqui não se reencontrarão?

In vino veritas!

(AK)


Crônicas de um Enoleigo - Parte 6

Como foi que o cara ensinou fazer isso mesmo? – Caramba... Pluft!

O sono leve, quase um estalar de dedos cobertos por cortiça, postou o sorriso no rosto de Alberto. Tinha ido bem no corte da cápsula. A tampa saíra perfeita, tinha séria pretensão de guardá-la. Depois simulou umas três vezes o encaixe do saca-rolha na garrafa até tomar coragem e abri-la. Estranhou um pouco os dois níveis, mas o som final o deixará confiante para o dia seguinte. Jamais transpareceria para Suzana sua leiguice. Tinha dado certo até aqui e, agora, faltava pouco.

Com a garrafa aberta se apercebeu de um pequeno detalhe: taças! Tinha copo de cerveja aos borbotões, alguns de cachaça e poucos de destilado, porém nem uma taça de vinho... Sentindo-se um perfeito idiota descartou a idéia de voltar para a rua quando viu o trânsito intenso de São Paulo ecoar em buzinas na sala de seu apartamento. Teve uma idéia: o vizinho! Era um senhor solteirão de cinqüenta e poucos anos, moravam no mesmo prédio desde o final da década de 90, sujeito bacana que certamente teria umas taças...

- Olá seu Carlos, boa noite.
- Beto? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Não... Quer dizer... Sim! Preciso de uma taça de vinho, você tem?
- Tenho... Mas, qual o motivo de tamanha pressa? A garrafa está vinagrando?
- Como, hum, não! Está aberta e...
- Ah! Já sei... Dia de abate e faltaram os apetrechos...

Aquele senhor saiu andando para dentro do apartamento soltando um sorriso maroto.

- Como? Não... Alberto até tentou se explicar, mas as taças estavam sobre sua mão em segundos.
- Para o amor, taças de tinto, cor da paixão... eh eh eh
- É... Bem... Obrigado!
- Manda ver garoto! Não deixe ela esperando...

Alberto não deixou. Pela primeira vez sozinho visualizou, cheiro, provou aquela bebida divina. Sem ninguém o perturbando, sentido uma extrema paz, como se os cinco sentidos se voltassem para a degustação. Nem a televisão ele ligou, apenas uma jazz ao fundo, bem baixo Getz servia de moldura para aquele quadro.

O problema foi o ritmo, pois entorpecido pela garrafa vertida na goela em menos de meia hora adormeceu no sofá, onde o sol das dez o fez pular para o chuveiro na manhã seguinte.

Era o grande dia!

Tocou a campainha do apartamento de Suzana quinze minutos antes do meio dia. Ficava em Pinheiros, relativamente próximo ao restaurante. Em dez minutos chegariam. E em uma hora se faz muita coisa!

- Olá rapaz...
- Oi.

Quando ele ainda apreciava o vestido floral, de alças finas, que deixavam o colo de Suzana exposto, foi arrebatado por um beijo cheio de... Madeira! Sem saber se estava inebriado pela ágil língua de Suzana ou pelo potente vinho que ela devia estar a apreciar, Alberto se viu jogado no sofá, arrebatado. Num salto sorridente, a sagaz donzela pulou para o que parecia ser a janela de uma cozinha americana. E perguntou:

- Quer provar? É um Santa Carolina, Reserva de Família, Carmenére.
- Claro...
- O que tem aí?
- É...
- Hum... Que beleza! Grand Cru! E pensar que nós o chamávamos de “Senhor Pão de Açúcar”.
- Como?
- Seus primeiros vinhos. Você comprou lá, certo?
- Sim, mas...
- Mas o que, Beto? Acha que eu caí no seu papinho?
- Que papinho?
- Não conhece esse CS não...

E enquanto Suzana ignorava a garrafa e servia a taça de Alberto, ele começava a descobrir a capacidade de se extrair e, mais das vezes, expressar, a verdade através do vinho. Mas teve pouco tempo para raciocinar, pois logo depois de provar o vinho Suzana o atacou novamente, com ainda mais volúpia.

- Sua boca com vinho é ainda mais gostosa...

Enquanto pensava ser era a hora de liberar suas mãos, refletiu a grave inversão ali vivida. Ela me serve de vinho, me ataca assim que chego na casa dela, usa frases excitante... Que maravilha!

- Teste!

Suzana já com um seio amostra pela alça caída do vestido soltou Alberto e começou a perguntar.

- O que você sentiu no vinho?
- Sua boca...
- Não espertalhão, vamos... Teste de sentidos sob pressão. Responde!
- Baunilha...
- Nossa, que mais?
- Pimenta e, na boca notei madeira também.
- Menino, assim você me excita demais! Ela fica um tempão em barrica... Toma mais.

Ele finalmente pode perceber a beleza de taça que ela tinha em casa, bem mais elegante que a de seu vizinho. Rodou um pouco o vinho, inalou, bebeu, sendo observado por ela, deitada com a cabeça no braço do sofá, de pernas cruzadas. Belas pernas...

- E aí?
- Ele demora na boca.
- A palavra é persistência.
- Isso eu preciso para ter o que quero...

Quando finalmente ele tomou coragem e atacou Suzana, ela se levantou.

- Nada disso, temos um almoço nos esperando.
- Ei...
- Acaba de degustar essa delícia e vamos logo, teremos todo o sábado...

Lembrando do Sater (“Ando devagar, porque já tive pressa...”), ele seguiu bebericando... Maravilhado com a garrafa pesada que finalmente conseguiu segurar. Parecia outro tipo de produto, se comparado aos que tomara nessa semana de descobertas enólogas. Aliás, Suzana também era diferente de todas as mulheres com quem saíra. Essa segurança e comando todo deixavam uma sensação de que a qualquer momento ela sumiria. Como a garrafa que, de súbito, chegava ao fim.

- Vamos de táxi?
- Estou de carro.
- E bebeu, Senhor Pão de Açúcar...
- Certo...

Seguiram para o restaurante... Enroscando o sabor do vinho em um beijo tórrido no elevador, deixando o pobre Ímpetu, na mesa da sala, com ciúme do belo Santa Carolina...

(...continua...)

domingo, 1 de agosto de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 5

Amigos(as),

Os Domingos demoram a chegar!!! rsrs.

Cá estamos com mais um capítulo da eletrizante série das "Crônicas de um Enoleigo". Quem já não se viu em situação parecida? Quem já não chegou a uma loja de vinhos totalmente perdido sem saber nem por onde começar?

São exatamente destas situações que falamos. Divirta-se!!

In Vino Veritas!

(AK)

Crônicas de um Enoleigo - Parte 5

A sexta demorou a passar...

Felizmente uma reunião interminável invadiu a tarde de boa parte do pessoal do andar, inclusive a de Alberto, deixando as informações colhidas na internet ressoando na sua mente.

- Sempre pensei que vinho fosse coisa de gente metida e rica... Foi o pensamento vagante enquanto respondia sobre o nível de produtividade do último trimestre ao Diretor de Marketing. E ao final da reunião estava decidido, passaria na loja da Grand Cru dos Jardins. Havia encontrado a dita quando pesquisou o tal do “Cru”... Ficava perto do trabalho, parecendo opção bem mais agradável que um shopping.

No caminho um SMS tilintou:

“E aí sumido, confirmado amanhã?”

Nossa! Simplesmente esquecera de Suzana... Navegou um pouco no excelente site do restaurante e ficou impressionado com o bom gosto do local. Achou o máximo ler a sua história, sobretudo o nome, pois “Se existe choperia, livraria, churrascaria, doceria, por que não uma vinheria?” Perfeito! Daí seguiu fuçando e achou até a Carta de Vinhos, como, aprendeu, chamavam o cardápio dos rótulos. Apesar de um tal “Gala 2 CS” argentino passar dos cem reais, alegrou-se ao achar um chileno por menos de setenta, e era da tal uva que a loira falou naquela noite. Carnemé?!? Carne é?!? Precisava decorar mais essa, senão o mico na loja seria certo. Ops! Estava esquecendo dela novamente... Teclou:

“Por que não jantar?”

A resposta dela veio quando já saía do carro e se assustava com a suntuosa fachada. Parecia uma caixa toda vinho, rasgada no meio pelos vidros da vitrine, deixando o conteúdo da loja todo exposto. A enorme porta se abriu quando ele leu:

“Negativo, vou para BH de noite. Passe aqui uns 30m. antes da reserva. Lembra do endereço?”

Nos poucos instantes antes da boa noite lembrou-se da carona que lhe deu, da bravinha esboçando sorrisos, do beijo que ela roubou na porta do prédio e, claro, do endereço. Arrependeu-se, e muito, de não ter se convidado para subir, mas a decisiva da dupla era ela. Quem sabe amanhã...

- Olá, boa noite. O atendente sorridente, de terno e gravata, parecia simpático.
- Boa noite.
- Posso ajudá-lo.
- Sim, onde ficam os chilenos? Sentiu-se bem fazendo a pergunta com tamanha decisão.
- Levo o senhor até eles.

E seguiram para dentro da belíssima loja, decorada com muita elegância. Ao chegarem o atendente sugeriu:

- Temos um cinco estrelas da Decanter, cem por cento Shyrá, que está uma pechincha. Tabalí Reserva 2008.

Vai começar novamente, pensou Alberto... Caramba, Suzana pedira um Decanter na cada de Pedro. Agora o tal aparelho dá estrelas? E cinqüenta e quatro Reais ficou barato para um garrafa de vinho quando? Daí arriscou ser sincero, aproveitando a distância de Suzana:

- Estou começando agora sabe, conhecendo aos poucos esse mundo que é o vinho, mas indo devagar com os preços...

- Claro!

O atendente foi surpreendentemente compreensivo e seguiu para uma garrafa próxima.

- Para começar, nada como Cabernet Sauvigon. Aqui temos um da mesma bodega, mais simples, é verdade, porém bem em conta.

Alberto adorou a garrafa. O cavalo trotando e o nome “Ímpetu” eram perfeitos para o contexto atual. Provinha também do tal Valle Central, um bom sinal, pensou orgulhoso da lembrança dos rótulos do Casilero e do Sunrise. A cápsula vermelha dava uma aparência elegante. E o preço... Ah, o preço!!! Meros vinte e três Reais!!! Maravilha.

- Quero dois.
- Perfeito. Presente?
- Pode ser...

Sacou o celular e digitou.

“Chego mais cedo... Acabei de te comprar um chileno. E alguém me deu um saca rolha bacana.”

Enquanto o atendente embrulhava cuidadosamente as garrafas ousou, sacou o dito do bolso de trás da calça e ousou perguntar:

- Ei, alguém aqui sabe como eu uso isso?

O riso foi geral, mas o educado atendente deu umas dicas. Mostrou o primeiro e o segundo nível, bem como a forma de apoiá-los na boca da garrafa. A elegância do aparelho era incomparável com o usado na casa de Pedro. E parecia muito mais eficaz.

O toque cristalino denunciou, mais um SMS chegou:

“Então chega mais cedo. Beijo.”

(...continua...)

domingo, 25 de julho de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 4

E chegamos a mais um Domingo!!! Hoje estamos no Rio, dia lindo, sol brilhando, churrasqueira acendendo e mais um capítulo das Crônicas de um Enoleigo indo ao ar!

Aonde será que estará Suzana?

Divirtam-se!!!

In Vino Veritas

(AK)

Crônicas de um Enoleigo - Parte 4

Sede... Muita sede... Mas nada de ressaca. Pela forma que tocou o carro para casa Alberto achava que tinha exagerado, pois ficou solto rapidamente. Mas a única sensação que restara era a sede, persistente, mesmo após o segundo Gatorade cujas garrafas vazias ornavam o lado da sua cama.


Já no banheiro sorriu para o espelho e se assustou com a coloração dos dentes. Dormir sozinho permite extravagâncias na higiene pessoal como aquela, mas quão pavorosa era a tonalidade do seu sorriso! Assustou ainda mais quando cuspiu na pia. Sedimentos vermelhos apareceram e Alberto imaginou fossem fruto de algum corte na boca, logo descartado. Era do vinho mesmo. Fixou uma nota mental:

- Se beber vinho, jamais deixe de escovar os dentes!

Ligou o rádio do banheiro e foi tomar uma ducha enquanto ouvia as notícias da Rádio Bandeirantes. Velhos hábitos... Após deixar a noite anterior correr pelo ralo, sentindo o frescor da manhã estranhou aquela voz falando de vinhos espanhóis, comparando-os aos franceses. Atentou. O comentarista falava de uma mesma uva ter vários nomes, mesmo dentro de um país. Aparentemente se chamava Ciro alguma coisa. Ilha? Lilás? Pesquisaria.

Rumou para o escritório, um pouco mais cedo que o normal. Ao chegar percebeu o vazio das baias, conseqüência dos tradicionais happy hours de quinta. Inclusive seus companheiros de andar com quem bebera não deram nenhum sinal de vida. Muito bom. Navegaria por pelo menos uns quarenta minutos sem ser perturbado. Logo digitou no Google:

Ciro vinho "rádio bandeirantes"

Ops! O nome é Ciro Lilla, e é um colunista da rádio. Pensou: como nunca reparara nisso?!? E se espantou com os títulos dos comentários:

“Regiões do nordeste espanhol também produzem grandes vinhos tintos.”

“Itália começa a usar o termo ‘cru’ em seus rótulos de vinho.”

“O significado de ‘cru’ em alguns rótulos de vinhos franceses.”

“Os melhores Ribera del Duero lembram os belos Bordeaux”

“Vinhos tintos espanhóis de Ribera del Duero são considerados por muitas pessoas o melhor do país”

- Caramba! Nem sabia que tinha vinho cozido... Pensou ao clicar para ouvir o comentário que lhe parecia mais didático.

- Alberto seu idiota... O Cru associa a um vinho de qualidade. Premier Cru. Grand Cru. Valeu Sr. Lilás! Deixe-me eu ouvir outro, sobre os tais crus na Itália.

E assim seguiu ouvindo comentário a comentário – pouco entendendo –, porém maravilhado diante do verdadeiro mundo que se abria. Ficou muito curioso com a associação da geografia, história e, sobretudo, cultura regional. E sedento por mais pensou:

- Se a Bandeirantes possui alguém será que a CBN não tem um concorrente. Voltou ao Google e digitou:

“CBN Vinho”

Logo apareceu na tela: “Resultados da pesquisa: CBN - A rádio que toca notícia - Renato Machado”.


- Renato Machado? Já ouvi falar desse aí...Opa! Ele mesmo, o âncora do Bom dia Brasil entendia de vinho... Alberto já se impressionava com a cultura geral do repórter, além de pronúncia francesa impecável, agora mais essa. Começava a se sentir um idiota.


E era mesmo... Por que foi só então que percebeu o saca-rolha sobre sua mesa. Formava um curioso “S” e servia de peso de papel. Levantou e achou um bilhete com grafia feminina:


“Vinheria Percussi, sábado, 14h. Você faz a reserva.”


Sorriu e voltou para o Google.


(...continua...)

domingo, 18 de julho de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 3

E cá estamos com a terceira parte desta divertida e original crônica! Falar sobre o cotidiano de uma pessoa totalmente leiga na arte de Baco. Todos nós já passamos por momentos semelhantes e, com o crescimento do consumo do vinho no Brasil, imaginem quantas pessoas não passam por isto diariamente!

Será que Suzana finalmente vai se soltar com Beto? Será que Beto continuará dando “bolas dentro” ou cometerá algum engano? E Pedro, como está reagindo a isto tudo?

Então vamos lá!!! Finalmente chegamos a terceira parte!!

Crônicas de um Enoleigo - Parte 3

Sorriu para mim, não disse nada, porém fez um jeitinho... Inicio da madrugada paulistana e a voz macia de João ecoava no apartamento meio despercebida, conquanto emoldurasse perfeitamente aquele momento. Baco agia.

- Quando foi que ela parou de me evitar e passou a me encarar?

A mente de Alberto estava confusa. Pudera, a terceira garrafa estava para ser aberta, tendo matado as duas primeiras do Sunrise Merlot em pouco mais de uma hora. Os velhos costumes dos cervejeiros causam sérios estragos aos iniciantes dos prazeres do vinho. Goles longos e rápidos, tão comuns nos botecos e seus copos de copos americanos, não condizem com prazeres sensoriais, taças, rolhas etc. Sim, existem os gourmets cervejeiros, porém a infeliz maioria dos brasileiros senta à mesa do bar no final de tarde de quinta e sexta-feira querendo apenas anestesiar os efeitos dos dissabores diários. E logo começa... Vira,vira, vira... Vira, vira, vira... Virou!!! Se alguém já viu alguém fazer essa bobagem juvenil com vinho certamente reparou naquele nefasto galão de “Blood of bouef” ao chão do ambiente!

- Achou alguma madeira no fundo do copo?!? A corada Suzana era a última que sobrava à mesa.
- Sim, claro...
- Adoro o frescor da Merlot, mostra a suavidade da vida e esse nariz macio e frutado parece me descontrair mais e mais a cada momento... Talvez por isso a chamem da uva feminina, junto com a Carmenère, claro.
- Apenas o vinho te descontrai?

Mais um sorriso perfeito. Beto estava solto e Suzana era outra mulher. Aquela sisuda, pouco comunicativa e monossilábica jovem ficara em algum recanto do escritório. Desde a segunda taça de vinho ela se transformara em puro charme e alegria, demonstrando abstrair daquele líquido vermelho algo muito além do que a capacidade sensorial de Alberto poderia imaginar existir. E o pobre coitado se embriagava com sua beleza e conhecimentos.

- Vamos partir para o Casillero?
- Opa!
- Você escolheu bem.
- Obrigado.
- Adoro esse rótulo...
- Sério?
- Esse diabinho... Baita jogada de marketing!
- Fato!
- Don Melchor era um gênio.

Beto não fazia idéia de quem era o tal nobre, mas Suzana nem notou. Já abria as garrafas pessoalmente desde o desastre ocorrido com a primeira. A peneira tinha dado conta do recado, mas ela reclamou do gosto amargo da cortiça no primeiro gole e devolveu boa parte do vinho, algo não repetido por Alberto, surpreso pelo prazer da primeira impressão enóloga de sua vida.

- Lindo no copo... Bem mais intenso!
- Vermelho forte.
- Nossa... É uma potência mesmo! Suzana falou empolgada ao enfiar o nariz na taça depois de rodá-la, prática imitada por Alberto desde cedo.
- Impressionante.
- Beto... Caramba! Cereja, ameixa e...
- Baunilha!
- Isso mesmo, Baunilha!!!

Alberto chutou, mas chutou certo. Também pudera... Se o Sunrise Merlot o impressionara, provar o Best Buy do novo mundo entorpece qualquer iniciante. Fosse a taça correta, com o bojo necessário, talvez ele até se desligasse do colo de Suzana e ficasse uns bons minutos de olhos fechados, deixando os séculos de experiência da Concha y Toro tomar de vez sua alma.

Sua reflexão foi interrompida por um berro:

- E aí galera!!!!

Pedro partira para a cachaça logo após o incidente da rolha. E os demais embalaram e decidiram dar uma fumada em uns cigarros de cravo na sacada do apartamento, prática resultante em outra menos lícita e explicitada a partir do odor agora presente no ambiente.

- Opa!

Apenas Alberto respondeu. E se assustou com a voracidade trôpega de Pedro ao se aproximar de Suzana murmurando algo. Se não fosse o vinho ter deslocado tanto seus sentidos para o olfato e o paladar, poderia ter afirmado com certeza que uma mão masculina atravessou os limites dos pudores públicos. Então Suzana assumiu uma feição rude e se levantou indo em direção ao banheiro. Pedro, então, voltou à atenção para a mesa.

- Graaande Beto! Deixa eu provar esse vinho...

Quando Suzana se virou a cena era de um Alberto olhando Pedro com a garrafa do Casillero na boca, vertendo no gargalo. O bêbado ainda teve tempo de perceber a mudança de direção dos cabelos loiros na altura da omoplata, agora seguindo na direção da saída do apartamento. Sentou-se e procurou por Alberto. Nada. Berrou:

- Pessoal! Sobrou vinho...

(...continua...)

domingo, 11 de julho de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 2

Amigos,

Chegou Domingo e, como prometido, cá estamos com a segunda parte da divertida "Crônicas de um Enoleigo". Enquanto aguardamos a final da Copa (e quem será que ganha??), nada melhor do que dar algumas risadas, não é mesmo?

Para quem não leu, segue o link para a Primeira Parte das Crônicas de um Enoleigo.

Esperamos que gostem!!

In Vino Veritas!

(AK)

Crônicas de um Enoleigo - Parte 2

O prédio parecia ser aquele mesmo. Rua Baronesa de Itu, Higienópolis. O porteiro o deixou entrar, mas o olhar de censura para as sacolas plásticas de supermercado era indisfarçável. - É só para transportar a bebida, pensou Alberto. Enquanto isso, a cada passo seu em direção ao elevador o som das garrafas de vidro se tocando ressonava nas paredes do hall. E os vinhos, virando um milk-shake de uva...

Já no sétimo andar, Pedro o aguardava à porta e logo se apropriou das sacolas. Era seu parceiro da baia esquerda, na empresa em que trabalhavam. Passara um pouco dos trinta anos, tal como Alberto. Mas aí estava a única semelhança entre eles, pois provinha dessas famílias paulistanas ricas, era o bonitão do andar, cheio daquele charme da opulência financeira. O apartamento bem demonstrava isso.

- Belo sobrado... Logo elogiou Alberto.
- Obrigado. Respondeu Pedro.
- Só cheguei eu?
- Nada... Estão todos aí.

E cruzaram a sala principal em direção a uma porta que abafava a batida do “Samba da Minha Terra”, na versão do Bossacucanova. Ao correr, a porta revelou uma acolhedora sala de jantar em forma de barzinho. Três bancos altos perto da chopeira davam para uma mesa de madeira rústica rodeada de cadeiras de acrílico onde todos já bebiam chope, menos Suzana, que parecia tomar água.

- Finalmente! Exclamou um, mordiscando uma azeitona.
- Trouxe cerveja? Perguntou outro, apontando para as sacolas na mão de Pedro.
- Não, é o vinho...

A voz constrangida de Alberto era evidente, porém sua discrição era mais pela beleza que Suzana deixou transparecer ao se levantar, do que, propriamente, pelo recipiente que escolhera para transporta o vinho. Suzana nem o cumprimentou direito, e foi logo checar as garrafas.

- Sunrise... Escapou um sorriso, enquanto segurava a garrafa.
- Sim! Alberto a encarava nos olhos, evitando a atração que o decote da camisa provocava.
- Mas está quente...
- Como?!?
- Precisa ir para o gelo, Pedro.
- Vinho, no gelo? Aqui em casa a geladeira só tem cerveja, eu já tinha avisado.
- Para de bobagem... Eu coloco.

E enquanto demonstrava a Alberto um desconfortante conhecimento da casa de Pedro e, igualmente, sobre vinhos, todos voltaram atenção para os excelentes azeites e pães dispostos à mesa, rodeados de acepipes, deixando o papo fluir.

- Vai um chope, Alberto?
- Vou esperar o vinho... Gelar... Definitivamente, Alberto sabia pescar dicas.
- Pensei que ninguém ia me acompanhar, estou me segurando desde cedo.

Suzana finalmente dirigia a palavra ao proprietário das sacolas do Pão de Açúcar, já devidamente depositadas em um lixo qualquer. Mas a loira seguia ao lado de Pedro, que aparentava estar já no quinto ou sexto chope.

Uma meia hora depois, Pedro trouxe a primeira garrafa de Sunrise para a mesa e algumas taças. Suzana logo se manifestou.

- Pequenas demais, são de vinho branco Pedro...
- É?
- E o saca rolha?
- Aqui!

O aparelho era medonho. Duas hastes de aço escovado emoldurando um cilindro preto no qual um abridor de tampinha saltava por cima. Era uma versão chique daquele saca-rolha que se fixa pela boca da garrafa e, enquanto se enrosca, a broca perfura a rolha, as hastes vão se levantando, como uma bailarina amadora se olhando no espelho. Uma estética ímpar!

- Eu uso mais para abrir as Originais, mas deve funcionar.
- Pedro...
- Qual o problema?!?
- Nenhum. Desde que você abra.
- Eu?!? Por que não nosso enólogo??

Pedro passou o instrumento para Alberto, que se odiou por ter negado aquele chopinho... Acreditava saber usar o tal aparelho, mas o olhar crítico de Suzana o deixava cabreiro. Era agora ou nunca. Levantou. Quando já tinha posicionando o medíocre aparelho ouviu:

- Não vai cortar a cápsula?
- Hum...
- Vá em frente... Certamente o Pedro não tem cortador de cápsula aqui.
- Certo...

Esse tipo de saca-rolhas é traiçoeiro. O ingresso na rolha se dá com facilidade, logo as hastes estão levantadas, pedindo para serem baixadas. Quando isso acontece parece que a rolha sairá inteira, perfeita. Doce ilusão... Sempre sobra um pouco na garrafa, sendo necessários alguns movimentos pendulares bem leves para finalizar o processo. Alberto não sabia disso.

- Vai com calma senão quebra a rolha, disse um.
- Xi...
- Opa, devagar...
- Putz!

A rolha até saiu quase toda, mas um toquinho caiu no vinho enquanto Alberto foi consumidor por uma vontade enorme de se trancar no lavado.

- Viu só, senhor Pedro?
- Eu?!?
- Sim, você!
- Mas quem tentou abrir foi o Beto!
- Mas a culpa foi do seu saca-rolha!!!
- Como???
- Fosse um de duas fases certamente ele teria aberto sem problema alguma, não é?

Alberto fez cara de sério, concordando com Suzana, que já estava longe de Pedro, nitidamente irritada. E arrematou:

- Vai pegar um decanter e uma peneira, vai...
- Um o que?
- Deixa... Traz só a peneira!

(...continua...)

domingo, 4 de julho de 2010

Crônicas de um Enoleigo - Parte 1

Pois é. Para quem desconfiou do término da bilateralidade do blog, cá estou de volta. Sim, reconheço, estou perdendo de 50 (ou mais!) a 2 para o Tatau (GK), sem dúvida o grande responsável pelo sucesso do Enoleigos. Meu operoso e meticuloso irmão está demonstrando uma capacidade ímpar de cultura e organização, isso sem falar nas fotos fantásticas que posta. Eu acabei me seduzindo demais pela endorfina, não consigo acompanhar o ritmo das degustações. Donde pensei em como poderia contribuir para o blog, mesmo me limitando a uma garrafa de vinho por semana, se muito. E tinha de ser algo que se amoldasse ao objetivo desse blog. Disso tudo nasceu a primeira crônica abaixo.

Tomara que gostem!!!!

Um abraço.

In vino veritas!

(AK)

Crônicas de um Enoleigo - Parte 1

- Chile, Argentina, França, Espanha, Portugal, Brasil, Austrália... Nossa, até África do Sul?!? Maldita hora em que eu resolvi tirar onda com ela...

O pensamento de Alberto já voava longe depois dos primeiros quinze minutos vagando pelas prateleiras do setor de vinhos da loja do Pão de Açúcar. Era para ser mais um sábado comum. Os colegas da empresa que o contratara no começo do ano finalmente o haviam convidado para algo além de um happy hour. Tudo por uma frase tola no meio do almoço de quarta.

- Os chilenos são fantásticos.

Foi quase um reflexo. Fazia tempo que a loira do terceiro andar o fascinara. Era daquelas mulheres quietas, charmosas, que falam apenas por sorrisos e olhares. Quando finalmente esboçou um comentário sobre vinhos – era o assunto daquele almoço de um outono frio – Alberto nem titubeou. E a resposta dela veio como uma armadilha:

- Você também gosta? Adoro os da Concha y Toro, em especial o Sunrise Merlot. Uma delícia!

Alberto engoliu seco. Concha? Toro? Desde quando vinho se relaciona com moluscos ou touradas?!? Entretanto era a frase mais longa que Suzana proferira nas três ou quatro vezes em que almoçaram juntos em meses. A resposta havia de ser natural. E foi...

- Hum... Muito bom.

A lembrança do sorriso rápido, exibindo dentes perfeitos, distraiu sua atenção pela terceira vez no mercado. Um misto de ansiedade e preocupação o assolava. Até que o atendente do mercado o trouxe para terra:

- Posso ajudar senhor?

Era um rapaz de cabelo cheio de gel, simpático, e com a qualificação sommelier estampada na camisa. O alívio de Alberto se traduziu em palavras:

- Sim, muito.

Explicada a situação, logo o santo homem mostrou duas garrafas do tal Sunrise Merlot. Logo se impressionou com a chamada de trezentos dias de sol que o rótulo trazia. Mesmo assim Alberto indagou:

- 2008... Não é muito novo? Dizem que vinho bom é vinho antigo...

O atencioso profissional explicou brevemente a noção de vinhos jovens, concatenando a lição com as dificuldades da guarda e a rotina mundial de se beber garrafas quase sempre no mesmo dia da aquisição. Alberto cogitou puxar o Iphone para fazer uma anotação e utilizá-la logo mais para puxar papo com Suzana... Mas logo veio uma pergunta do atendente:

- Serão apenas mulheres?

- Não. Devem ser umas cinco pessoas, três homens e duas mulheres. Por quê?

- Bem... Poucos homens gostam de Merlot.

- Do que?

- A uva...

- Uva tem nome?

- Sim, sim... Era nítido o sorriso sarcástico escapando no rosto do atendente.

- Pensei ser o nome do vinho...

- Não. O nome do vinho é Sunrise, a bodega, ou melhor, o fabricante, chama Concha y Toro, já a uva é a Merlot.

A cada explicação o atendente apontava na garrafa. Alberto achou o máximo a lição, mas se preocupou com o horário. Estava atrasado!

- Bacana. Então o que indica?

- Já que estamos falando de Chile, e de grandes fabricantes, leve mais essas duas garrafas de Casillero del Diablo, Cabernet Sauvigon 2007, foi uma safra muito boa.

Alberto pegou as garrafas correndo, agradeceu e foi direito para o caixa. E quanto viu os R$ 147,50 aparecerem na tela do computador deixou escapar um “nossa senhora” e refletiu: - Compraria cerveja para uns dois churrascos de cinco pessoas!

E lá se foi ele... Com duas garrafas em cada sacola plástica branca, pousadas no banco do carona de seu Civic. No primeiro sinal acendeu a luz e olhou a garrafa do tal vinho “caseiro”... Xingou o atendente quando viu o rosto do demônio na garrafa! Definitivamente, Suzana não iria gostar...

(...continua...)
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